Metá Metá lança segundo disco “metal metal” e disponibiliza download gratuito em sua página oficial na internet.
>>> Sobre MetaL MetaL:
Quando lançaram Metá Metá em 2011, Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França dividiam o disco em dois, como se houvesse um lado A/lado B imaginário. Na segunda metade do álbum, o disco ganhava um corpo mais denso, além do trio voz, violão e sax, apareciam novos instrumentos: bateria (Sergio Machado) e Percussão (Samba Sam). Canções como Vias de Fato, Oranian e Obá Iná eram mais pesadas que as demais.
Nos shows do álbum, os integrantes, ao tocar essas canções mais pesadas apelidavam o momento de Metal Metal. O show ganhou ainda mais peso com a presença do baixista Marcelo Cabral.
Ao abrirem a apresentação de Femi Kuti em São Paulo, Metá Metá fez uma apresentação em formato totalmente elétrico, com versões mais rápidas e explosivas. Surgiu a idéia de fazer um show/álbum inteiro nesse formato.
Gravado em junho de 2012, no estúdio El Rocha em São Paulo, por Fernando Sanches, MetaL MetaL flerta com punk, metal, noize, free jazz, música africana, latina, brasileira.
MetaL MetaL carrega uma ironia em seu nome, uma discussão sobre o que é tocar rock hoje em dia. Contrapondo-se ao gênero, que, muitas vezes se apresenta desgastado, com fórmulas limitadas que se repetem há décadas. O álbum de Juçara, Kiko e Thiago dialoga com o rock como atitude, jeito visceral de tocar, não como gênero. Mistura-se a influências diversas, sobretudo à linguagem da polifonia africana, sem deixar de se relacionar com o meio urbano, a cidade e o contemporâneo.
>>> Foto: Fernando Eduardo
MetaL MetaL é:
Juçara Marçal – voz
Kiko Dinucci – voz, violão, guitarra e percussão
Thiago França – sax, flaura e EWI
Marcelo Cabral- baixo
Sergio Machado – bateria
Samba Sam – percussão
Gravado em junho de 2012 no estúdio El Rocha, por Fernando Sanches
Gravuras – Kiko Dinucci
Arte gráfica – Gina Dinucci e Marcio Marianno
Selo – Desmonta
Produção – Metá Metá
Mixagem e masterização – Fernando Sanches (estúdio El Rocha)
Faixas:
1- Exu [DP- tambor de mina nagô (Maranhão)]
2- Oya (Douglas Germano/Kiko Dinucci)
3- São Jorge (Kiko Dinucci)
4- Man feriman (DP – cantiga para Oxun – candomblé)
5- Rainha das Cabeças (Douglas Germano/Kiko Dinucci)
6- cobra rasteira (Kiko Dinucci)
7- Logun (Kiko Dinucci)
8- Orunmila (Douglas Germano/Kiko Dinucci)
9- Tristeza Não (Alice Ruiz/Itamar Assumpção)
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>>> Metal sobre Metal — Escutar de novo, pela primeira vez
Por Bernardo Oliveira
Baby, baby, baby, não se assuste, a cidade é iluminada! Mas serena? Tranquila? Não, definitivamente. Como te (en)cantar, São Paulo? Como lançar o feitiço da canção por sobre teu asfalto, cantar o encantamento de teus desencantos, ligada no 220, na “padocaâ€, nos olhares discretos e garagens infinitas? As respostas possÃveis foram dadas pelos punks da periferia, pelos rappers, pelos versos tortos da lira — e mesmo teu samba é anômalo! Teu corpo inteiro é vasto e cresce multidirecionado, mas muitos reconhecem em ti uma “periferiaâ€, desencavada do esquecimento estratégico para habitar para sempre nosso imaginário (blame on the boogie, Nelson Triunfo, Racionais…). Seus abismos sociais, interações tÃmidas e canções paradigmáticas, que entoam a cidade remota, a cidade dos que “moram longe†(longe de quem, de onde?), que padecem da falta de condução, “se eu perder esse trem que sai agora à s 11h…†Como cantar esta cidade munido apenas por violão, saxofone e uma voz? Como fugir da maldição da MPB, do “sambinha†e da “mpbezinhaâ€, munidos com as mesmas armas? “Das armas brancas, quÃmicas quentes, música é a preferida…â€
A armadura instrumental pode não deixar dúvidas, mas o que fazer diante do fato de que as dúvidas simplesmente desmoronam? Basta assimilarmos uma realidade improvável, segundo a qual teriam marcado encontro na mesma encruzilhada, sob a bênção de todos os orixás, a radicalidade do improviso jazzÃstico de Peter Brötzmann, o peso do Black Sabbath, os afrosambas de VinÃcius e Baden Powell, os detritos sonoros do drone, os ruÃdos no wave, a pegada do punk e do metal, a música da umbanda e do candomblé, as dissonâncias de Arrigo e Sonic Youth, a pujança do tambor de mina, da ciranda, da umbigada, o canto das três raças, o cinema falado, a escola de samba e a onipresença de Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, cascavé, ensinando a bater cabeça no sobressalto do afoxé, e a fazer riff de metal no galope acertado de um “batuque†de cordas e sopros…
Kiko Dinucci converte seu instrumento em um hÃbrido de violão e guitarra, mas também assume as formas do atabaque e do agogô. Adapta o instrumentos à s técnicas do “piano preparado†de John Cage, interpondo um pedaço de plástico entre as cordas e o corpo do violão. Por vezes, emula uma banda inteira através da utilização de pedais de distorção, palhetadas abafadas, linhas de baixo repletas de intervalos menores, acordes dissonantes, dedilhados abertos e muito suingue. Os sopros de Thiago França extrapolam o papel de “solistas†geralmente consagrado a este instrumento, e, tal como o violão, se afirmam a partir de uma série de possibilidades imprevistas: percutindo as chaves, criando desenhos rÃtmico-melódicos para servir como acompanhamentos e usando as ressonâncias da respiração para criar texturas sinistras. Com seu timbre versátil e interpretação precisa, Juçara Marçal é a maior cantora brasileira surgida nos últimos 30 anos. Como nenhuma outra, conjuga força expressiva e espontânea, com versatilidade e, o que mais chama a atenção, dosagem precisa de emoção na emissão e nos floreios, o que a destaca de grande parte das cantoras da atualidade.
Ressalto as qualidades instrumentais do conjunto porque, além da concepção, é a execução um dos grandes baratos de Metal Metal, segundo álbum do trio Metá Metá. Se a expressão indica a sÃntese de uma trÃade (“metá†em iorubá significa “trêsâ€), adequada à sólida argamassa destilada pelo grupo em suas apresentações, o emprego do parônimo Metal Metal não só reforça a soldagem consistente de seus talentos, como também alude ao bater dos ferros do candomblé, à batucada digital do Kraftwerk de “Metal on Metalâ€, do heavy metal de linhas melódicas menores e sombrias, apontando para uma linha fora da curvatura: o discurso da “música popular†tomado por inflexões e perspectivas absolutamente destoantes de tudo o que vem sendo feito nesta seara.
Em seu último livro, Desde que o samba é samba, o escritor Paulo Lins narra uma visita de Brancura, célebre sambista do Estácio, ao terreiro de umbanda. A mãe de santo se vira para o compositor e diz: “Faz um ponto pro Pai Joaquim do Cruzeiro das Almas, Brancura! Quando a gente vai cantar pra ele, fica cantando esses pontos velhos — pediu a mãe de santo — Ele cuida tanto de você.†A cena, descrita com a fluência dos videntes, capazes de reportar à força de um acontecimento, ilustra um procedimento comum na constituição da umbanda e do candomblé em território brasileiro: a porosidade do corpus musical das religiões afro-brasileiras, aberto à contribuição criativa dos fiéis e seguidores.
Das nove faixas de Metal Metal, pelo menos três se aproximam da canção litúrgica na qual se especializaram não só Brancura, mas também Pixinguinha (sendo “Yaô†sua contribuição mais conhecida): “Oyáâ€, parceria de Dinucci com Douglas Germano, oferece uma pungente roupagem jazzÃstica em alusão à batucada ritual do candomblé; tingida por uma proximidade com a música cósmica de Sun Ra, o afrobeat “Logunâ€, composto por Dinucci (“Caçador que marca com arô não se perde…â€); e a incrÃvel regravação de “Rainha das Cabeçasâ€, composta por Dinucci e Germano, registrada pelo Bando Afromacarrônico em 2008, preenche todo o espaço com seu ritmo frenético e versos de devoção:
“Awoió ori dori re
Iyemanjá cuidou
Adé, alá, beijou
E encheu o ori de mar…â€
Faixa introdutória de Metal Metal, “Exu†abre-alas: o sax combina ruÃdos, ambiências e melodias soltas, o violão percussivo se transfigura em um terreiro de candomblé e Marçal solta a voz como quem lança impiedosamente o fio de uma espada sobre os sentidos do ouvinte. “Man Ferimanâ€, outra composição de domÃnio público, ganha uma roupagem repleta de dedilhados e intervenções do sax. Em alusão ao vocabulário e à cadência dos pontos litúrgicos, “Cobra Rasteiraâ€, composta por Dinucci, é a única a remeter à música latina, ao passo que “São Jorge†faz referência ao afoxé, texturizado por efeitos e intervenções instrumentais admiravelmente imprevistas. “Tristeza nãoâ€, composição inédita de Itamar e Alice Ruiz, encerra o trabalho a meio caminho dos Stones de “Can’t You Hear me Knockin’â€: um peso descomunal entoado com singeleza e concentração comoventes.
Metal Metal reforça uma concepção calcada no punch da execução e nas infusões sonoras inesperadas, executada por três artistas que empunham seus instrumentos como um campo aberto de experiências. Operando por contraste com o discurso dominante da chamada MPB, a música do Metá Metá expõe o ouvinte a uma experiência situada entre a familiaridade e a desorientação — escutar de novo, pela primeira vez. Recusa-se, ao contrário do que se espera hoje da sigla MPB, a emprestar tons pastéis e execução standard a elementos do rock e da música de todos os santos, extrapolando fronteiras pré-delimitadas pela dinâmica ideológica e mercantil. Não seria o esgarçamento de tendências comuns ao discurso mediano da MPB que confere ao grupo algo para além das siglas e gêneros? Em outras palavras, como cantar São Paulo no século XXI? A resposta não poderia ser mais explosiva e eficiente: conjurando-a com outras armas brancas, outras quÃmicas quentes, leveza, curto-circuito.
Bernardo Oliveira
Ps.: Baseado no artigo “Escutar de novo, pela primeira vezâ€, editado no blog Matéria, a propósito dos shows do Metá Metá no Oi Futuro Ipanema, dias17 e 18 de agosto de 2012.
>>> BAIXAR O DISCO – Metá Metá “metaL metaL”, clique aqui.